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Todo o amor começa no impossível.
Fechou o computador (manteve-se aberto, mas quem quis saber dele?), desligou o telemóvel (continuou ligado, mas quem quis saber dele?) e dedicou-se a imaginá-lo nos sonhos. Foi mesmo assim: vê-lo falar nos sonhos. Olhá-lo ser. Ela sabia que fazia mal em ir, assim, sem saber porquê e farta de saber porquê. Mas um ano depois lá foi reencontrar-se com ele. Sem intenções. A medo. Ela não acreditava no amor e ainda assim ali estava, naquele festival em que duas almas aprenderam que havia amar para sempre.
Todo o amor é feito de aprendizagens.
Quando ela o viu, nada mais à volta continuou a andar. Pelo menos dentro dela. Passaram o festival (os cinco dias mais bonitos que um festival algum dia ofereceu a alguém) a falar sobre absolutamente nada, e a sentirem absolutamente tudo. Passaram o festival a amar-se sem que alguém o pudesse notar. Não houve toque (apenas um abraço, sorrateiro, na chegada à procura de descobrir o que escondeu o interior dele durante um ano), mas os dois corpos sentiram-se mais agarrados, revolvidos, amassados e alvoroçados de uma intensidade avassaladora mais do que nunca.  
Todo o amor precisa de pele para tocar.
Ela tinha medo de estar a ficar para sempre, ali, por dentro dos olhos dele. Tinha medo de voltar a sofrer por amar alguém, que simplesmente não entende que quem ama não magoa. Mas como poderia ela voltar à simples vida depois de ter reaprendido a viver com ele? Ela só olhava para ele todo (o cabelo escuro dele, o sorriso puro dele, a timidez irresistível dele) e sabia que o máximo que lhe restava, agora, era deixar o medo para trás, por mais que já tivesse entregado uma parte de si a ele há muito. Era o festival mais imortal que lhe concedeu apenas um abraço há um ano, onde havia dois corpos à procura de mais.
Todo o amor se encontra à procura de mais.
Todo o universo os esperava, naquele luar vislumbre, a amarem-se para sempre no tamanho daquela noite. Mas só o que estava por vir lhes ocuparia a memória e marcaria aquele simples (e tão corriqueiro) festival. Não sabem se foram horas se foram só minutos. Sabem que a partir dali nunca mais entenderam a vida da mesma forma. Foram ao osso do sentir. Sentiram uma paz e uma felicidade tão pura e tão expectante, que os fez sonhar consciente e inconscientemente, tantas vezes assim. Viram um no outro a pessoa que queriam, sem saberem, e quem os faz estremecer, sem quererem. Quando acordaram no dia seguinte perceberam que estavam a acordar pela primeira vez.
Todo o amor nos acorda pela primeira vez.
Lá fora, pela porta da tenda, entrava o sol que nem tinham reparado que estava ali, tão perto, tão atento. Não sabiam se voltariam a amar-se assim, mas sabiam que nunca mais deixariam de se amar. A vida, teimosa, exigiu que se separassem poucas horas depois. Ela regressou a casa, triste e feliz, do festival onde a felicidade fizera história. Ele regressou, triste e feliz, à estrada onde descobriu que o sonho era real. Não havia certeza nenhuma, nada era certo. Mas ambos partilhavam o maior dos segredos, o mais perpétuo dos mistérios da vida. Só os dois sabiam o sabor do amar.
Todo o amor guarda o segredo da vida.



Catarina Gonçalves

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